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 Atualizado em 17-02-20 10h50min  |  Fonte: Portal UAI |  Qtd Leituras: 278
Adílson traça metas e planos em ano de reconstrução do Cruzeiro


Poucas pessoas são tão otimistas quanto ao futuro do Cruzeiro quanto Adilson Batista. No fim do ano passado, o técnico aceitou o desafio de voltar ao clube onde se destacou, mesmo com o rebaixamento iminente à Série B do Campeonato Brasileiro. Não evitou o pior, mas foi mantido no cargo e tem se engajado de todas as formas na reconstrução do clube. Na quinta-feira, dia em que completou um mês de trabalho nesta temporada, o treinador de 51 anos recebeu a reportagem do Superesportes para uma conversa em que mostrou espontaneidade e confiança. A meta absoluta do ano é conquistar o acesso à elite nacional em 2021, ano do centenário cruzeirense.

´O mais importante é o acesso. Se é como campeão ou vice, o Cruzeiro precisa estar em 2021 na Série A do Campeonato Brasileiro`, disse o treinador, que não se permite pensar em fracasso na Segundona. ´Nem passa pela minha cabeça isso`.

Em mais de uma hora de entrevista, Adilson não fugiu de temas espinhosos. Questionou aqueles que deram as costas ao Cruzeiro e à disputa da Série B, lamentou a subserviência dos jogadores aos empresários e falou dos bastidores da queda em 2019.

Nesse começo de temporada, o primeiro desafio de Adilson é construir um time competitivo com os garotos da Toca e alguns reforços pontuais. Quanto a isso, ele está tranquilo, pois vê talentos em ascensão no dia a dia de treinos.

Rivalidade com o Atlético, gestão de Wagner Pires de Sá e eleições de 2020 são outros assuntos abordados por Adilson na entrevista que você lê a seguir:


Sua volta ao Cruzeiro muitas vezes bateu na trave. Você está hoje onde queria estar?

- Eu sempre quis estar aqui. Eu trabalhei em outros clubes, também fui feliz, fui respeitado, fui tratado de forma decente, tive apoio. Observei muitas coisas, conheci jogadores, fiz bons trabalhos também. Deixei de ganhar títulos em alguns, fui lesado. Fomos prejudicados no Vasco. No Atlético-GO, também fomos lesados. Voltei ao Figueirense, que também tive boa passagem, mas o Cruzeiro sempre foi o clube que eu tinha como minha casa. Um carinho. Me sinto seguro. Era uma casa que eu… Foram várias vezes. Desde 2011, quando tinha saído, recebi convite enquanto eu estava no Atlético-GO, quando estava no Figueirense também. Aí, outros, fui travado por um diretor (do Cruzeiro) que não pode nem sair de casa. Faz parte.


Você foi travado por quem?

- Um diretor que não pode nem sair da casa dele. Pensa aí quem é.


Nesse primeiro mês de trabalho, o que já deu para concluir deste Cruzeiro?
- Um time de muitos jovens. Teve uma debandada em relação aos antigos jogadores em função do rebaixamento. E nesse começo do ano você tem trabalhado com os jovens. O que deu para sentir?
- O que deu para sentir é brilho nos olhos, vontade, ambição, querer melhorar, respeito pelo trabalho, o querer aprender. Eu tenho paciência para ensinar, abraçar, chamar e mostrar. É isso que estou sentindo. Eles estão a fim de vencer na profissão. Isso é o mais importante. Eu sinto brilho nos olhos deles. É o que eu sinto.


Na sua trajetória, você já foi chamado de Professor Pardal…

- O que é legal, né? Não deixa de ser legal inventar. Invenção faz parte e é boa. De vez em quando dá certo, outras não. Mas a invenção você vai tentar. Isaac Newton tentou, Albert Einstein tentou. Tem que tentar.


Mas agora você é um típico professor mesmo. Tem que chamar no canto, ensinar, enfim. Você está curtindo essa experiência?

- Estou, porque eu nunca trabalhei em infantil, juniores. Eu já dirigi jovens. É até um conselho que dou e relato um episódio que aconteceu comigo na profissão. Eu trabalhando com um menino no Grêmio, eu lancei em 2003, Marcelinho. Um atacante, rápido, tinha 17 anos. Mas hoje eu vejo que errei naquela oportunidade. O Grêmio precisava de um velocista, e eu chamei ele. Nos ajudou, foi importante para não cair em 2003.
- E aí tive uma experiência fantástica no Jubilo Iwata. Eu chegando, vi o Yamamoto, um volante, muito bom, técnico, cabeça erguida, parecia o Falcão. Eu disse que ele subiria, jogaria comigo no profissional. Ele ficou dois anos com a gente no profissional e depois pediu para voltar para a base. Ele disse que precisava voltar para os juniores, jogar na seleção, ele precisava se formar para depois ele se profissionalizar. Uma coisa que aconteceu na minha carreira. Eu errei (de lançar o Marcelinho tão cedo), faz parte do processo.
- Aqui, nossa mentalidade, todo mundo, pai, mãe, já vislumbra dinheiro. E o japonês me deu uma lição, achei um negócio interessante. Hoje, tenho que mostrar para eles. É uma etapa, faz parte não queimar. Eu vejo que estão com cabeça boa.


Empresários e saídas de atletas

Esse cenário em que o Cruzeiro está hoje tem exposto muito a ação do empresário na vida do jogador. Hoje, o empresário tem prejudicado o clube? Muitos jogadores não têm voz ativa ou pais presentes. O empresário está muito nocivo, especialmente no caso do Cruzeiro?

- Pelo que eu tenho acompanhado, sim. Eu, se fosse o presidente, não deixaria entrar (na Toca da Raposa II). Em La Masia (Centro de Treinamento das categorias de base do Barcelona) você não entra. Em alguns clubes lá de fora, não entra. Cada clube tem sua maneira de trabalhar. Tem os bons, que querem fazer o menino crescer, ajudar, mas têm outros que têm outros interesses.
- O Brasil é um país continental, deveríamos trabalhar mais no processo de captação. Esse menino chegar, trancar ele lá e não deixar mais entrar. E ele fazer carreira e ser atleta do Cruzeiro. É o Cruzeiro que está dando oportunidade para ele. Daqui a pouco o empresário chega e vai ter um percentual, vai embora e o Cruzeiro tem 20%, 30%. Temos que ser firmes. Sou da época da negociação de presidente para presidente. Nós tínhamos 15% (do passe) na data da negociação. Hoje tem muita gente envolvida. Quem forma e se sacrifica, gasta milhões de reais para manutenção, é o clube.


Neste ponto, especificamente, você acha que o goleiro Rafael, que tem uma história no Cruzeiro, foi influenciado para deixar a Toca? Você vê algo estranho nesse caso?

- Eu não sei. Eu respeito o Rafael, tenho consideração. É um menino muito bom. Nós é que lançamos ele em 2008, é um belíssimo de um atleta. Agora, ele tem a família, os pais, empresário, eu não vou julgar. Não quero julgar.


- Sei que você não quer citar nomes, mas o que você disse há pouco me lembrou a situação do Éderson, que foi lançado ano passado, se destacou e saiu pela Justiça. Como você vê essa decisão dele?

- Eu vejo errada a decisão dele. Tem coisas que você precisa tomar a decisão. Isso parte da pessoa. Por mais jovem que ele seja, isso é o Cruzeiro. Alguns atletas preferiram não jogar a Série B pelo Cruzeiro. Mas no ano que vem vão pedir para voltar e eu não quero. Deixar bem claro. Eu estava atrás de um jogador, e ele disse que não queria jogar a Série B. Você acha que vou atrás desse jogador no ano que vem? É uma passagem nossa.
- Então, decisões você toma. E erra. Eu deveria ter ido para o Benfica, não fui. Eu deveria ter ido para o Olympique de Marselha, não fui. Aí fui parar no Japão. Eu deveria ter jogado no Benfica. Mas você tem que tomar a decisão. E esses meninos estão perdidos. Hoje é muita informação e poucos para falarem a verdade. O que eles precisam ouvir. E estou dizendo isso para eles.
- Estou dizendo na correção. Não é o que a imprensa fala, não é que o seu pai fala, sua mãe fala, namorada fala, empresário quer falar. Não é o cara que monta seu DVD certinho. É aqui, tem coisas para corrigir. O Cyro (Leães, auxiliar) ajuda, o Célio (Lúcio, auxiliar) ajuda. Assim que é o processo.


O Henrique, você trouxe ele para o Cruzeiro, e ele deixou o clube agora. Reconhecido com o torcedor. Tem contrato até o fim de 2021. Ele é um dos jogadores que você não quer no ano que vem?

- Não, o Henrique saiu daqui triste. O Henrique a gente precisa fazer uma placa para ele. Ele sofreu com pessoas erradas, estava triste com coisas erradas aqui no Cruzeiro. Eu pedi para ele ficar. Ele disse que precisava sair. Não é o Henrique (a quem eu me referi). Não mandei recado ao Henrique. Ele volta quando quiser. Bom caráter, comprou briga com alguns atletas aqui, que não estavam querendo ajudar o clube. É bom deixar claro. Eu cheguei aqui e vi muita coisa errada.


Tem jogador que se esconde no departamento médico neste momento difícil?

- Cada ser humano tem um jeito de reagir. Uns são mais corajosos, outros mais introspectivos. Eu, dentro do processo de observação, passo coragem. Se eu perceber, eu vejo que esse aí (que se esconde) não é do meu time. E a gente percebe.


Joias do novo Cruzeiro

Outros jogadores jovens preferiram ficar no Cruzeiro. Casos de Cacá, Maurício, que agora que tem crescido muito. Gostaria que você falasse sobre eles. Esses jovens que, apesar de orientações de gente de fora, tiveram cabeça firme para seguir no Cruzeiro.

- Não é bem preferiram ficar. Acho que oportunidade como essa, na situação que o Cruzeiro se encontra, nunca mais vai aparecer para eles. Eles precisam agarrar e aproveitar. Foco, empenho, e estamos aqui para ajudar. E apareceu já para o Cacá (proposta), mas o grupo gestor já vislumbra valor maior. Eu tenho que respeitar, não é minha área. Eu vejo futuro bonito para eles e vejo potencial e espero aproveitá-los ao máximo. Daqui a pouco precisamos vendê-los para pagar as contas que fizeram aqui, né? Fizeram muita conta.


Até o momento todos estão bastante satisfeitos com o trabalho, mas a gente sabe que futebol é resultado. Até onde você espera que vá a paciência da torcida com este novo Cruzeiro?

- É difícil mensurar. Eu, independentemente dos jogos, sou muito realista. A gente tem que relevar aspecto físico, entrosamento. Observe o último jogo. Foram 20 minutos de trabalho em que eu tive os cinco reforços juntos no time. Eu tinha iniciado com o Marco Antônio e ele sentiu (desgaste muscular). Tinha iniciado com Caio, Jesus, e depois coloquei o Everton. E já estou mudando o posicionamento. Eu acho que vai dar liga, mas vai perder. Vai errar. Mas o mais importante para o torcedor é chegar no fim do ano e olhar que voltamos para a elite no ano do centenário, em 2021.
- E fora do eixo Rio-São Paulo, só o Cruzeiro ganhou, né, meu amigo? Tem que respeitar. Entra um concorrente ao título brasileiro de novo (em 2021), não é isso? É assim que funciona.


Em entrevista recente ao site Deus me Dibre, vimos você elogiar o Paulo zagueiro, o colocando com perfil europeu. Gostaríamos que comentasse a respeito desse jogador e de outras promessas da base…

- Ele é um quarto zagueiro de perna esquerda. Isso é difícil. Ele tem um ganho quando a bola vem, já domina e faz a inversão rápida. Tem um ganho no passe, na quebrada de linha. Mas ele é menino. Tem que ter calma. Eu falo no dia a dia: ‘vamos trabalhar esse menino, vamos ajudar esse menino, ele vale ouro para o Cruzeiro’. Nem sei se ele é 100% do Cruzeiro, de quem é o passe dele, mas espero ajudar.


Série B

Você vê alguma possibilidade de o Cruzeiro não subir para a Série A?

- Nem passa pela minha cabeça isso.


Quais são os grandes adversários para o Cruzeiro na Série B?

- Isso aí, depois falamos. Tem viagem, jogo no Nordeste. Quem sobe? Ah, o Vitória pode subir, o Paraná, a Ponte. Eu não vou…(fazer previsão). A gente viu aí, o América estava na boca (de subir), e perdeu. Acho muito cedo para falar disto.


Na Série B, você acha que é fundamental ser campeão?

- O Cruzeiro sempre entra na competição para ganhar. Mas o mais importante é o acesso. Se é como campeão ou vice, o Cruzeiro precisa estar em 2021 na Série A do Campeonato Brasileiro.


O Cruzeiro perdeu prestígio com a queda à Série B?

- Prestígio, essa palavra não. Quando se fala em Cruzeiro, não se perde prestígio. O momento e a passagem pela B, alguns (jogadores) deixam de vir. Alguns deixam. Mas o São Paulo foi um clube legal com o Cruzeiro (emprestou Everton Felipe). Alguns jogadores demonstraram interesse. Alguns demonstraram, mas querendo furar o teto. Vejo muita gente. Tem que elogiar o Léo, o Fábio, o Edilson que estava lá: ‘vamos acertar, vai ser importante’. Porque chegar lá e falar: ‘ah, vamos jogar a B, tem que ser cascudo…’. Tem que jogar futebol. Tem que jogar bola. O Machado, que estou colocando, veio lá do São José-RS, ele joga a A, a B, a C, o Campeonato Português e vai jogar a Champions. Tem que jogar. É isso que eu penso de futebol.


Você está preocupado com as punições que obrigarão o Cruzeiro a jogar com portões fechados, podendo chegar a sete jogos?

- Vamos aguardar a definição, se será um, três, sete jogos; contra quem será. Evidentemente tira um pouquinho do brilho, que é você ter o torcedor, fica sem a cobrança, o incentivo. Fica como se fosse um jogo-treino. É meio esquisito, já joguei com portões fechado, parece um treino, um jogo frio. Mas ainda temos tempo para responder melhor.


Em uma volta à Série A, a competitividade do Cruzeiro vai demorar um pouco para se equiparar ao que era antes?

- Eu não sei. Há inúmeros problemas a serem resolvidos, e eu não sei quando serão solucionados. Não é minha área. Não posso te falar. No início teve apresentação, e eu estava dando treino com 13. Dos 13, três ou quatro sabiam que não iam ficar. Ou seja, tinham dez. E eu rezando para os meninos da taça (Copa São Paulo) virem. Não que não quisesse que o Cruzeiro não fosse campeão da Taça, mas não tinha jogadores para o primeiro jogo, se vocês observassem. Tem gente acompanhando o trabalho: tinha 10, 12, 13, 16, 18. E tinham os que não iam ficar. E tem gente treinando aqui. Eu deixei bem claro: ‘vamos respeitar o aspecto profissional, o lado profissional, o contrato de vocês, aquilo que têm para receber. Mas dentro do meu trabalho, ninguém vai atrapalhar. Entrou aqui dentro, esquece que está devendo três meses, quatro meses, cinco meses. Vai trabalhar. E se eu entender que será importante colocar, como foi o caso do Rodriguinho, vou colocar. Agora não, não acertou, não vai ficar, não acertou, vai embora. É assim que eu trabalho.


Rivalidade com Atlético

Diante do maior poder de investimento do Atlético, qual a responsabilidade do Cruzeiro no Campeonato Mineiro em relação ao rival?

- Eu sempre vou entrar na competição para tentar vencer. Independentemente de ser um time mais jovem, de garotos, nós estamos no Cruzeiro. Também sou bem realista: eles (Atlético) têm uma equipe mais forte que a nossa. Precisamos jogar. Espera o primeiro jogo, aí depois vocês falam. Vamos aguardar, não é assim que eu falo? (risos)


Em sua primeira passagem pelo Cruzeiro, você teve bons números em clássicos contra o Atlético. Gostaria de enfrentar o rival mais vezes em 2020?

- Pode ser só uma esse ano. Pode ser três. Não sei. Pode ser cinco. Não adianta ficar lamentando o Campeonato Brasileiro da Série A, minha realidade hoje é jogar a Série B no dia 2 de maio. Vamos nos concentrar, daqui um mês é o clássico (contra o Atlético), aqui agora é o clássico contra o América, um time pelo qual tenho muito respeito, fui bem acolhido lá, gostei muito de trabalhar com o presidente Marcus Salum, conheço os jogadores, tive uma boa relação, fui bem tratado lá também. Lá na frente a gente vê o que vai acontecer.


- O que os jogos contra América e Atlético vão te oferecer de parâmetro para a Série B?

- É muito relativo. É apenas o quarto jogo. Um mês de trabalho. Nós não erramos ainda o suficiente para pontuar: ‘opa, teremos essa necessidade’. Nós temos uma linha de quatro formada, temos um goleiro que eu subi, muito bom, o Denivys. A linha de quatro tem o Valdir para suprir o Edilson. Tem Edu, Arthur, Paulo, está lá o Matheus, o próprio Rafael, o Pedro - achei interessante o menino -, o Guilherme, que também tem potencial. Tem o Welinton, o Jesus, o Popó, o Caio, o Marco Antônio, que tem talento. O ideal era dar cancha a todo mundo, só que no futebol você precisa ganhar. Uns vão ter poucas oportunidades, poucos minutos, todos têm de aproveitar. Percebo isso no dia a dia de treinamentos.


Confiança em Edilson

A respeito do Edilson, você afirmou em entrevista à TV Horizonte que ia cobrar dele disciplina nos treinos para fazer de 10 a 12 gols de falta. Ele até mudou a maneira de bater na bola, optando por um chute colocado, em vez de usar apenas a força, e conseguiu fazer um gol contra o Tupynambás. Como tem sido esse trabalho com ele?

- Ótimo. O Edilson é um jogador experiente, vencedor, tarimbado. Sabe muito bem fazer a linha de quatro. Sabe apoiar, bate bem na bola, cruza bem. Pênalti, pode dar a ele a responsabilidade, não vai sentir. Falta, bate colocado e forte. Aquilo que falei espero concretizar. Disse a ele no último jogo: ‘agora faltam dez (gols)!’.


Edilson é o novo cobrador de pênalti?

- Um dos cobradores. Ele tem trabalhado ao lado de Jhonata Robert, Everton e Maurício.


A torcida guarda uma certa mágoa do Edilson. Isso foi um dos pontos da conversa com ele no começo do ano?

- Às vezes a gente anda com má companhia, né?! A gente tira as más companhias, e aí resolve o problema dele.


A má companhia já foi embora?

- Uai. Já resolvemos (risos). Quer que eu fale o time que está? É um time que eu gosto (referindo-se a Thiago Neves, no Grêmio).


O Edilson chegou a falar que queria retornar ao Grêmio, mas acabou não interessando muito ao clube. Depois, decidiu ficar no Cruzeiro. Você teve algum diálogo especificamente sobre isso com ele?

- Eu disse a todos eles que os respeitava profissionalmente, a história, as conquistas e o contrato. Tem que respeitar o contrato que fizeram. Alguém assinou. Esse precisamos responsabilizar. Tem que ter responsabilidade nisso. Assinou. Então, ele vai responder a partir de agora. A partir de agora é tanto. Aceita? Quer ajudar? Pronto, aceitou. Vida que segue. Aí dá uma afastada na turma que não reza. É assim que tem que fazer.


Goleador

Em sua primeira passagem pelo Cruzeiro, o elenco contava com jogadores que faziam muitos gols, casos de Guilherme (23 em 2008), Wellington Paulista (26 em 2009) e Kléber (24 em 2009). Quem no time de 2020 tem potencial para ser o artilheiro? O Roberson pode ser esse atleta? Ou outro?

- Passaram alguns aqui de 12 milhões e fizeram quatro gols. Outro de 20 milhões fez oito gols. Outro que custou 25 milhões fez não sei quantos gols. Ou seja, a gente também precisa ver, né?! Temos que ter cuidado.

- (O Roberson) é um menino que sabe fazer gols, sabe trabalhar a bola, é inteligente, tem base no Inter, no Grêmio. Não vai sentir, pois subiu com o Internacional na Série B. Sabe jogar. Espero que ele, o Maurício, o Everton, o Jhonata, o Caio, o Alexandre Jesus, o Judivan, o Popó, esses têm de fazer os gols.
- Que o Jadsom chegue como elemento surpresa. Ninguém esperava que o Ramires fizesse tantos gols, mas ele fez. A função dele não era essa. Às vezes você tem um centroavante, como o Kleber (Gladiador), que mais saía do que jogava dentro da área. Aí o Wagner fazia, o Gilberto fazia. São características. Hoje, nosso time é mais leve, mais rápido, é isso que queremos.


Tática

Na sua opinião, é importante para um jogador saber cumprir mais de uma função em campo?

- São as valências, a dinâmica, a mecânica e a ocupação de espaço. Vou te dar o exemplo do Alaba (lateral-esquerdo do Bayern de Munique). Ele é lateral, é quarto zagueiro e joga de volante. O Lahm, o Fernandinho… eu só não fui gênio aqui porque não coloquei o Apodi de ponta-esquerda. Hoje ele é ponta-esquerda na Ponte Preta, foi ponta-esquerda no CSA. Está ali marcando, cumprindo, obedecendo. O Daniel Alves, o Dunga colocou na segunda linha de quatro. Se a pessoa tem talento, vai jogar.
- Aqui vou colocar o Maurício na direita, no meio, na esquerda. Os dois adiantados. Ele tem as valências que o futebol está pedindo. O Everton vai jogar na direita, na esquerda, no meio. O Roberson vai jogar de centroavante ou vai dar uma recuada. O Jadsom pode ser primeiro ou segundo volante.


Todos nós precisamos crescer profissionalmente. A imprensa também precisa estudar futebol para discutir em alto nível. Por que aconteceu aquilo?
- Quando você quer melhorar uma saída de bola, se os seus zagueiros não estão construindo, por que não colocar (um volante na zaga)? O Felipe Melo está jogando de central (no Palmeiras), tem uma ótima batida de bola. O Vanderlei está inventando? Não.


Falando sobre tática, você veio para a primeira entrevista em 2020 com uma prancheta com vários esquemas. Você vê o Cruzeiro mudando o esquema no decorrer da temporada, até pela chegada de jogadores com outras características?

- O jogo mesmo vai te dando isso, o adversário vai te dando. Não vejo problema nenhum. Às vezes você está com duas linhas de quatro e passa a jogar com uma saída de três. Outras você está com duas linhas de quatro e dois atacantes, e passa a jogar com dois abertos e dois enfiados como fizemos contra o Tupynambás, quando terminamos com apenas um volante.
- Para jogar bola você tem de provocar, induzir, atrair, penetrar, saber onde tem de entrar, roubar a bola. O torcedor vai lá para se divertir, mas vocês (da imprensa) têm de ajudar a mostrar a origem, que aconteceu. Veja bem, se a gente perde o jogo (no domingo), o Machado já não serve. E ele jogou o jogo todo tranquilo, ele errou um domínio, faz parte. O Marquinhos Paraná no primeiro jogo caiu, se arrebentou. Hoje, está cheio de fã do Marquinhos Paraná.


Reforços

Como tem sido o trabalho em parceria com a diretoria do Cruzeiro? Todas as contratações passaram por sua avaliação?

- É bom o torcedor saber, pois às vezes querem criticar o Benecy (Queiroz, supervisor administrativo), que não tem nada a ver, e querem criticar o Ocimar (Bolicenho, diretor de futebol) ou o gestor. Todo jogador tem que ter a aprovação do treinador. Todo jogador. Às vezes passa batido. Às vezes é uma oportunidade. No momento em que estávamos, olha, vamos buscar esse, que é passe nosso. Vamos repatriar esse, que tem vínculo com o clube. Vamos olhar esse, porque temos 80%. Vamos dar uma atenção? Vamos. Isso faz parte do processo.
- Agora, em relação ao Machado, eram quatro nomes do Grêmio que tínhamos que trocar porque o senhor Orejuela não quer jogar a Série B. Ele não quer jogar. Ele foi para o Grêmio, o Grêmio nos ofereceu, eu liguei para o Renato (Gaúcho, treinador). Tinha o Guilherme, centroavante do Sport, Thaciano, Pepê, Darlan. Fui trabalhando com o Renato. Não, não, não, esse não. Aí mais quatro: Ferreirinha, Jhonata, Machado e Léo (Chu). Aí disse: ‘está aqui o Jhonata e o Machado’. Liguei para o Roger e perguntei: ‘como é o Machado?’. Ele disse: ‘pode levar, Adilson, é bom jogador, sabe jogar’. Pronto. É assim que funciona.
- Ah, precisamos de centroavante, estamos olhando aqui o custo, falei com o Antônio Carlos (Zago, técnico de Roberson no Bragantino em 2019). Foguinho, falei com Roberto Cavalo. ‘E aí?’. Ele disse: ‘belíssimo jogador’. O Ocimar estava jogando a B no ano passado (com o Londrina) e conhece todos esses jogadores. Que tenha e dê dinâmica, é isso que a gente quer. Não vai chegar jogador que João, Pedro e Juca vão indicar. Não é isso.


Qual a sua avaliação sobre o Foguinho? Jogador do Criciúma está mesmo nos planos do Cruzeiro?

- Não está aqui, né?! Sabe jogar. Tem as características que eu gosto em um meio-campista. Pode ser primeiro ou segundo volante.


Engajamento em campanhas nas redes

Além do trabalho dentro do campo, de montagem de elenco, você tem participado das ações de marketing. Você faz isso pela sua identificação com o Cruzeiro ou você faria isso por qualquer clube?

- O que eu faço pelo Cruzeiro, vou fazer sempre. Vocês sabem disso, são três clubes que eu respeito, admiro, que são minha casa. Athletico-PR, sou cria do Athletico-PR. Com o Grêmio tenho grande identificação, e o Cruzeiro. Nosso momento é de ajudar. Se eu puder colaborar, eu quero ajudar. Domingo passado eu falei com o Geraldinho (roupeiro): vou falar com os meninos para ajudarem, acabar o jogo, cada um joga sua atadura no lixo. Vamos limpar o vestiário? No Japão é assim.
- O Cruzeiro é respeitado em todo mundo. O pessoal respeita o Cruzeiro. A gente joga contra e sabe. Quero uma imagem boa, lado positivo, processo de captação, sócio-torcedor. Precisamos ajudar. É um momento difícil. São muitos problemas jurídicos, financeiros, Fifa. A gente fica preocupado e quer ajudar. Minha função é no campo, e estou fazendo alguma coisa ou outra fora do campo não tem problema


Você aderiu ao Instagram e ao Twitter. E lá há torcedores que são influenciadores digitais, têm muitos seguidores. Você acompanha as críticas nas redes sociais?

- As construtivas, sim. Às vezes as pessoas se escondem, têm medo. Eu, como sou autêntico, digo sempre a verdade, sei que devemos ter os devidos cuidados com isso. Mas vejo que o torcedor quer participar, quer interagir, saber de muita coisa, querem um canal da verdade. Quero que saia coisa boa daqui, precisamos valorizar os três jogos, valorizar os meninos, valorizar o último jogo que fizemos, que foi intenso, com posse (de bola).
- Temos alguns números aqui: em um mês, foram quatro lesões, sendo que o Fábio foi pancada, o Adriano foi pancada, Marco Antônio com desconforto (na coxa) e o Thiago com fisgada (na coxa). Vê se nos meus treinos, nos meus trabalhos teve lesão? Zero. É muito bom. Então, o nível de intensidade com que fazemos os jogos é um negócio lá em cima. Coisa boa. Você lança sete meninos no jogo? Ótimo. Quero trabalhar isso. É muita notícia ruim desde o ano passado, precisamos melhorar isso, essa é minha intenção.


- Ainda sobre redes sociais, queria que você comentasse dois casos específicos. Primeiro, houve um verdadeiro levante pela contratação do volante Rômulo (do Desportivo Brasil). E também em relação ao Vinícius Popó, pelo qual a torcida tem carinho muito especial por ele ter marcado mais de 100 gols na base.

- Vamos por parte. Primeiro, o Rômulo. Todo atleta que for do Cruzeiro, que tiver vínculo com o Cruzeiro, eu tenho a obrigação de olhar, de observar, mas desde que seja atleta profissional. Não quero bandido, não quero mau-caráter, não quero nêgo de farra, nêgo da bagunça. Atleta! Que queira vencer. Vai aqui para dentro bom jogador e bom elemento É isso que a gente quer aqui. Tenho de agradecer ao Dirceu Lopes e ao Palhinha, que vieram aqui (na Toca da Raposa II) recentemente. Os dois vieram e falaram com os meninos. Eles deram uma aula de como ser cidadão, ser humano, de como se comportar profissionalmente, de respeitar os pais, de se dedicar, de treinar, de obedecer, de ser exemplo. Só tenho a agradecer. O Rômulo também tinha ligação com empresários que estavam aí tirando jogador (do Cruzeiro). Eu gostaria de tê-lo aqui, só que eu tenho de respeitar algumas coisas que acontecem no contrato. Ele que peite o empresário dele e volte.
- Já o Popó, aprendi com o (técnico argentino Marcelo) Bielsa: não se lança jogador por lançar. Ou (corre o risco de) você lança, queima, acaba com a carreira. Popó é jovem, ainda é menino, tem idade para jogar nos juniores. Pedi para ele disputar a Copa São Paulo (de Futebol Júnior, em setembro), mas ele disse que tinha uma cirurgia. Aí, veio aqui treinar, estou acompanhando o treino dele. No primeiro jogo achei que seria interessante ter o Thiago, que fez gol, fez a parede e depois entrou o Judivan. E o Popó, uma hora vai ter oportunidade. Já trabalhou (nos jogos-treinos) contra o Democrata (de Sete Lagoas) e contra o Guarani de Divinópolis. É menino.
- E sobre os juniores, agora que melhoraram, criando o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil (da categoria), além da Copa São Paulo, cujos primeiros três jogos são contra presos (força de expressão para se referir a jogadores sem muita qualificação). Aí pega mais um preso que toma sol na quarta-feira. Aí vai jogar um jogo contra o São Paulo e um jogo contra o Palmeiras. No Campeonato Mineiro, é um jogo contra o Atlético e outro contra o América, mas e aí? Esses meninos não têm o enfrentamento de 15 jogos bons. Aí, vou fazer 100 gols. Mas quando cai no treinamento (no grupo principal), é outra realidade.
- Não vou me iludir por rede social. O parâmetro para mim não é rede social, pelo amor de Deus. Não é o que minha filha fala. Minha mulher adorava o Apodi, eu chegava em casa e ela pedia para eu escalá-lo. Mas eu tinha o Marquinhos Paraná, tinha o Jonathan. Tenho que escalar quem eu considero melhor. Tem de mostrar em campo. A conversa do atleta profissional é no treinamento, não é em rede social.

Você falou do caráter de jogadores. O Cruzeiro tem um histórico de ídolos com passado muito limpo. É fundamental trabalhar com jogadores com esse perfil ou você abre mão em algum momento para ter um jogador diferenciado, mas que seja um ‘jogador-problema’? Você foi campeão da Libertadores de 95, com o Grêmio, em uma equipe com jogadores com diferentes comportamentos...

- A gente quer bons profissionais, quer exemplos. Cruzeiro tem isso desde Dirceu Lopes, Tostão, Piazza, Procópio, uma geração que a gente sente orgulho, dava gosto de ver. Eu trabalhei com Ademir, Édson, jogadores que foram exemplo para mim. Eu jovem aqui no Cruzeiro, e eles eram exemplos. Queremos ir nessa linha, jogadores que tenham respeito, ambição, comprometimento. O que o Leo está fazendo, o Fábio está fazendo, o Adílson está ajudando os meninos também. É nessa linha que a gente quer.


Turbulência política

O Cruzeiro enfrenta bastante turbulência política e vai passar por eleição. Todos falam que ano eleitoral é sempre problemático. Como você avalia a confusão fora de campo?

- Espero que isso não influencie. Mas minha preocupação é com o campo. Espero que pessoas capacitadas, pessoas sérias, vençam. Quero gente séria dentro do Cruzeiro.


Você acompanhou, no ano passado, as denúncias de corrupção e, depois, os desdobramentos disso?

- Acompanhei e fiquei muito triste. Mas a tristeza já vinha desde 2013, quando se pagou R$ 1 milhão e tanto para um jogador ser banco. Isso machuca. Então, não é de hoje. Isso me deixa triste como cruzeirense. O preço foi pago no ano passado. Me deixa triste.


Você falou sobre dirigentes que não podem nem sair de casa...

- Acho que eles (dirigentes) não podem, têm medo. Em sã consciência, não dormem.

/elo


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 pyxis | BHZ | 08-02-20 09h24min
Ampla e com temas diversificados. Boa entrevista e a sinceridade de sempre do Adílson. Faltou somente falar o que ele acha da mídia rural... rsrsrs
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